NPC para não espantar devires
- Tadzio Veiga

- 31 de mai.
- 8 min de leitura
[Dança e NPC, NPC e os devires — Deleuze ficando parado — "I Míssil" da Improvável Produções — Hipérbole — Bounce e inércia — Hackear ou levar ao limite]

NPC otário não tem singularidade (Deleuze ficou triste kkkk).
Aff!!!!!!!!!!!!!!!! NPC não tem devir... será que a gente faz uma aliança com algum demônio para liberar devir para eles? Não tô falando de uma nova skin (eles nem tem esse privilégio). Tô falando de um mod! Já nos antecipo , porém, que minha intenção aqui, assumo, não é a da fabulação de futuros outros para os NPCs. Minha tendência é muito mais lembrarmos o quanto os atropelamos enquanto jogávamos GTA San Andreas!!! Ou o quanto espancamos menores de idade sob a forma de Jimmy Hopkins!!!!
MAS... antes de começar, embora já estejamos começando, preciso dizer que isso aqui não será uma crítica. Vou envolver o texto numa obra de dança, sim... mas não chamarei isso de crítica. E não porque não acredito na crítica e blablablá, mas porque me parece que não temos uma planície, na atualidade, em que seja possível efetuar alguma crítica, tendo em vista a política cultural que nos encontramos e o milicianismo paraestatal do qual a arte (esta que está tão embaçada quanto rarefeita) tem servido de ferramenta de manutenção. Heloisa Sousa resumiu uma questão sobre isso recentemente, ela me disse que "a crítica virou clipagem".
Eu vou me citar, rapidamente, para não escrever as mesmas coisas em textos diferentes. Trata-se de algo que sairá, em breve, num artigo:
Coisa rara essa de receber algum tipo de texto que aponta falhas, na perspectiva de quem escreve, sobretudo num contexto de artistas emergentes e distantes de alguma estabilidade no mercado de trabalho ou do próprio estado da arte. Talvez porque a “crítica” das obras esteja entorpecida ou mesmo denegada – e por por bons motivos, já que a própria política cultural se encarrega de extirpar a convicção dos artistas. Talvez também porque com a queda dos críticos e do aumento de artistas nos espaços acadêmicos, as elaborações textuais relativas às obras fiquem na responsabilidade dos próprios artistas. E, dito isto, se torna muito comum escrever para ou sobre amigos, parceiros em outros trabalhos ou pessoas com as quais vale a pena publicizar alguma boa vizinhança... isso tudo me parece convergir com o modo como estamos convencidos do que é uma boa recepção de nossas obras. (eu mesmo, "Chutando o cachorro morto da singularidade")
Conversava com uma amiga sobre o quanto que as mídias atuais (e suas convenções respectivas) acabam produzindo modos de atuação e performance nas crianças e adolescentes. E sempre foi assim, obviamente. O teatro, a performance e a dança (não fazem somente isso, mas também) vão se relacionar com o entorno — seja em negação, apropriação, repetição — e agora... o que talvez nos choque é que a produção dessas mídias estão forjando modos de existir (e de persistir) em que a singularização da própria experiência é cringe, ou seja, a experiência (qualquer que seja) não deve produzir efeitos (nem sensações e nem perceptos) a ponto de desestabilizar esse estado mediano que a criatura se encontra. Alguém farma aura quando não se empodera do que acabara de realizar, quando não ostenta aquilo que é capaz de executar (e nisso há algo muito interessante, mas ficará para um outro texto).
Em meio ao lugar conceitualmente anti-ético com o qual o NPC parece de modo hiperbólico conjurar, a Improvável Produções, das coreógrafas Marcela Levi e Lucía Russo, concebeu o espetáculo "I Míssil", que faz um jogo com I miss you e a palavra míssil, já articuladas por Linn da Quebrada em música homônima. Alguma dança é criada ou anulada com o NPC e os intérpretes Clara Alves, Lucas Fonseca e Martim Gueller. Tenho ido assistir os trabalhos das coreógrafas nos últimos anos, e destaco o embaralhamento de códigos e de convenções que elas fizeram quando coreografaram o Ballet da Cidade de São Paulo... me parece que ali houve uma radical compreensão de quais eram os dados materiais com os quais elas operariam alguma coisa.
Levi e Russo parecem se interessar pelas convenções (do espaço teatral, da linguagem, dos elencos que elas estão trabalhando, do próprio estado da arte da política e das artes contemporâneas), e isso aparece em "I Míssil". Elas justapõem convenções do espaço teatral (espetacular) com as convenções dos jogos, dos "modos de espera", e fazem isso sem muita barganha entre cada dado de convenção — não barganhar com o espaço teatral num período em que ele mal existe pode ser importante para mentirmos menos. Luz de serviço, quadrado preto emoldura o público que vai ficar olhando pro lado esquerdo, um Sirat pendular sobre nossas cabeças; tirar o chapéu, tomar um tiro, beber algo, dar "oi", comer milho, "não fui eu", rir, chorar, “dançar”, gorfar etc.
Representações grosseiras de banalidades e a inclusão de ações graves numa formalidade banal! Temos emoções, quer dizer, formas de emoções. Temos, ali, também, a entrada e a saída de uma bateria digital. E os artistas em cena fazem algo que, embora coreografado (ou justamente por isso), aparenta uma contra-dança; não se edifica nas suas próprias possibilidades. E lembremos que o artista, este portador de sabe-se lá o quê, deveria, noutro tempo mais molecularmente revolucionário, levantar alguma coisa que produza afetos e que pudesse (essa coisa) andar sozinha.
Hummm… justamente. Concordemos que, atualmente, nem o artista, ele próprio, a pessoa, tá conseguindo andar sozinho... tampouco as crianças: essas que seriam espinosistas por natureza e sem órgãos de antemão estão cozinhando a vista em telas verticais e se tornando especialistas em conceitos fechados.
E é aqui que retomo algo que Deleuze disse, talvez para que pudéssemos diferenciar o desespero de Antonin Artaud da experiência menor que o filósofo estimava:
Por isso sou pouco inclinado às viagens; é preciso não se mexer demais para não espantar os devires. (Deleuze, "Conversações", p.176)
E quando saber se estamos nos mexendo demais? Quando é que o movimento, este que juramos que é nômade e favorecedor da experiência singularizante, se torna espantador dos devires e é hora de cessar? NPC tem devir? NPC é modelo para uma vida? A colocação supracitada, do filósofo, reposiciona a ideia de nomadismo para além de um estereótipo do viajante. E isso é importante, claro. Só que agora as crianças atropelam e fuzilam NPCs (figuras que ficam em curtos movimentos repetitivos e que podem servir de formalização hiperbólica de um desengajamento do corpo e da vida) e também, por outras vezes, se inspiram em NPCs para criar alguma convivência no mundo real. Pessoas com síndrome de protagonista são pessoas que reagem além do adequado, que não compreendem sua pequenez.
E pensemos, rapidamente, no lugar que nós estamos. Nós (nós?), artistas, pesquisadores, trabalhadores da cultura. Talvez estejamos jurando, seja com franceses da diferença ou com os decoloniais, isto é, independentemente do que justifica nosso gesto autorreferenciante, que nossa atividade é potencializadora — e mesmo assim seguimos sem incidir no campo social, sempre desatualizados. O tempo da coreografia e da encenação não é o tempo dos desastres da atualidade: se você se inspirar num horror de hoje para fazer uma obra política e altamente esclarecida, esqueça, quando você estrear já não se falará mais nisso, outros horrores ainda maiores estarão ocorrendo, e talvez querer nos lembrar dos que sofreram ali acabe sendo apático com os que sofrem agora.
Mas aí não teríamos nem o que fazer, né? O que outros formatos, concebidos em outro tempo, como performances levantadas rapidamente, agit prop ou happening podem, demograficamente, fazer? Neste desertamento do que fazer, onde agir e por onde começar alguma coisa, parece bem sincronizar a ideia de hackeamento, que está atestada no flyer entregue antes de “I Míssil”, e que tem boa correspondência com autores como Paul Preciado e Donna Haraway.
O que aconteceria se hackeássemos essa espera? Se deslocássemos esses corpos que vagam sem agência, presos a roteiros pré-definidos, para um campo onde a latência se torna jogável e o inesperado pode emergir? (Flyer de "I Míssil")
Pouco depois, ainda no flyer, perguntarão: "e se essa pantomima fosse tensionada ao limite?", algo que eu posso conectar com uma das perguntas mais sérias que Deleuze e Guattari talvez tenham feito:
Como é que uma formação de soberania, um conjunto gregário fixo e determinado suportariam ser investidos pela sua potência bruta, sua violência e sua absurdidade? (D&G, "O anti-Édipo", p.487)
Fato é que, artística e filosoficamente, o hackeamento parece estar envolvido com um lugar de apropriação dos dados estruturados e estruturantes, de intervenção nestes meios com valores divergentes dos que estão alinhados à própria estrutura, enquanto que, num outro sentido, essa vontade de tensionar ao limite parece desejar um curto-circuito da coisa em si, uma implosão. Na dança e nas vozes da obra da Improvável parece haver um ping-pong entre essas duas ideias: de se apropriar dos meios do NPC e de produzir um bug nele. Ainda assim, uma atmosfera que reconhece a ineficácia dessas atitudes e do próprio ping-pong com a coisa (o gregarismo, o sobrevivencialismo, e, no caso, tudo o que pode representar o NPC) parece estar em vias de ser assumida pelos artistas que compõem a obra (e eu espero que por mais artistas).
A dança do espetáculo é uma espécie de bounce em que gestos integrados a este ritmo podem acontecer. Clara Alves, por exemplo, parece ter criado a capacidade de viver num bounce do NPC. Esse dialeto do NPC me lembrou o treino de improvisação em krump, popping e hip-hop, em que ações comuns são transpostas ao dialeto do movimento. Curiosamente, nesses treinos, tais transposições representam um jeito de você criar a "sua" dança, seja para incrementar coreografias pré-estabelecidas ou para se destacar em alguma batalha ou modalidade mais competitiva, enquanto que em "I Míssil" a transposição de certas ações funciona como um produtor de repetição e de serialidade dos corpos em cena... mas... ainda assim... o estilo aparece.………..? Aparece mesmo…..? Ou melhor: um NPC faria um dip ou o dip é a irrupção da vida de Lucas Fonseca na contra-dança do NPC? "A dança" tem, teria e terá essa força?
No texto entregue pela Improvável outros dados que parecem se relacionar com o montante filosófico da diferença aparecem: "política de escape", onde podemos ler linhas de fuga; "desvio do drible", que encontraríamos ressonância com o gesto destituinte do Comitê Invisível; o interesse que a "fixidez deslize", diretamente ornável com o espaço liso. Mesmo assim, é também no texto que nos é dito que é por interação ou envio de dinheiro que um NPC sairá da inércia.
Tenho procurado observar e me aproximar de alguma dimensão filósofica (ainda que triste, autodepreciativa) nas crianças, adolescente e recém-adultos que estão consumindo e produzindo a atualidade digital. Nós chegamos na utopia da singularização estimada por Guattari ou a gente se fodeu por acredita muito nesses processos todos? Há muita autodeterminação em usuários frenéticos de TikTok.
Obras como "I Míssil" da Improvável podem colocar em relatividade um esclarecimento que nada se envolve com os dados de nosso entorno. Mas é necessário verdadeiro interesse nisso, nessa relatividade, para que isso aconteça. Do contrário, podemos estar forjando experiências de qualidade NPC mas com formas outras, com roupagens outras. O NPC também pode sofisticar, não?! Comparemos NPCs do GTA III (2001) com NPCs de The Last of Us II (2020).
Me parece importante esse movimento de lidar com o pedaço menos singularizado do cotidiano. É o que o TIQQUN fez com o Bloom, é o que em Matilha nós fizemos com os entorpecidos. A contribuição desse tipo de movimento pode ser exatamente o de não tornar a cena uma celebração de tudo que não estamos sendo (e de não nos confortarmos com essa catarse de outra ordem), mas de explorar (explorar mesmo, não fazer distanciamento crítico para ficar bacana), precisamente o que temos sido, o que vem sendo o nosso entorno.





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