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Sirāt: a matilha vai morrer

  • Foto do escritor: Tadzio Veiga
    Tadzio Veiga
  • 20 de mar.
  • 14 min de leitura

Atualizado: há 6 dias

[Anômalos em matilha, A Matilha Sirāt — Devir cachorra — Deserção e crise da deserção — Deserto-desejo — Espaço liso ou desintegração — Assemble! — Ir para as rochas]


A estima da singularização num deserto com bombas plantadas.


Tenho procurado investir tempo, energia e bibliografia numa suposição: os agrupamentos micropolíticos não incidem no campo social como assumiríamos que sim; a isto, podemos atribuir entorpecimento ou mesmo morte da solidariedade em meio à diferenciação e dos movimentos em fluxos de desejo fugazes — o agrupamento que com essas características seria chamado de matilha. Talvez a matilha vá morrer, quer dizer, esse tratamento com o termo "matilha" já não caiba nos agrupamentos que, com sorte, nos deparamos... ou quem sabe a matilha já esteja morta! Mas tem uns momentos de alegria, né??? Quando nos sentimos em matilha... sabe??? Bom... falavam de "forma de potência" para descrever os fascismos, e talvez nós possamos, logo, falar de forma de matilha e também de forma de micropolítica e de solidariedade com a diferenciação. Mas isso já é muita coisa. Por enquanto, aqui, vamos focar na matilha, no deserto e na deserção... e no filme!

Não é para te irritar / Eu tenho que te contar / Minha decisão está tomada / Eu vou desertar. / Desde que eu nasci / Eu vi meu pai morrer / Eu vi meus irmãos partirem / E os meus filhos chorarem / Minha mãe que sofreu tanto / Está dentro de seu túmulo / E tira sarro das bombas / E tira sarro dos versos (Boris Vian, Lé Déserteur, 1954, a canção, originalmente em francês, tem trecho traduzido aqui, e aparece fragmentada no filme, num inventivo fantoche)

Tratarei do filme Sirat, e isso significa spoilers. Acredito que o filme mexe com coisas absurdamente pertinentes, e me parece também representar uma oportunidade de remanejar certas expectativas que ainda temos com relação à própria experiência artística — não à toa boa parte das críticas ao filme problematizam a gratuidade de certas aparições, como se fosse papel do artista e de sua obra trazer uma resolução, ainda que recreativa ou simulada, aos respectivos dados que estão sendo operados na criação. Esse tipo de problematização, reitera, ao meu ver, que o trabalho do artista deve ser o de encarregar-se do que as grandes instituições, que teriam o poder para tanto, não tem feito. As críticas ao filme Sirat tem essa cara: pra quê tudo isso/ pra quê algo tão vazio?!


Acredito que o filme traga pistas tão simbólicas quanto explícitas da crise da micropolítica que estamos em vias de assumir e nela trabalhar. Digo isso porque em Sirat não vemos a queda de um agrupamento singular por modelos melancólicos, relativos ao preconceito ou ao passado que retorna quando você menos espera, tampouco vemos essa queda ocorrer pela traição de algum dos indivíduos, isto é, caso algum deles traísse a singularidade e a matilha por conta do dinheiro ou do poder. O que vemos é tão simples quanto gráfico, é literal, tendo encaixes em diversas escalas de nossas vidas: não existe processo de singularização e de solidariedade com a diferença que produza resistência física no momento em que você pisa numa bomba.


Literalmente ao meu lado, na sessão do filme, na primeira vez que assisti, um homem, por volta dos 70 anos, passou a gritar "PORRA! CARALHO!" desde a primeira aparição de fatalidade. Normalmente, depois destas breves e individuais insurgências, ele mais ou menos chorava. Na primeira explosão, por exemplo, ele empurrou com os dois pés as poltronas que estavam na sua frente, com bastante força... não sei como não deu briga e baixaria. Eu estava assistindo com uma amiga e depois nos perguntamos se os efeitos da obra audiovisual, por si só, seriam suficientes para aquilo estar acontecendo com ele. Fizemos a suposição que não; isso podia significar que tinha ocorrência de LSD ou excesso de cogumelo naquele espectador de Sirat no CineSesc. Mas podíamos também supor, e é o que estou fazendo agora, que assim como a obra não é por si suficiente, os aditivos também não o seriam: o que nos deparamos no cotidiano não é bem mais absurdo que o filme e que as alterações decorrentes de supostas drogas????!!!


UM PUNHADO DE ANÔMALOS FAZ UMA MATILHA!


Matilha é agrupamento e fluxo de desejo. Matilha está no filme, é assim que aquele agrupamento acontece, e é por isso que quero tratar deste conceito aqui. "Matilha" é um modo de contextualizar filosoficamente a natureza não-sedimentada de certos agrupamentos, é um jeito de dar um nome, ainda que de modo tático, aos bandos que não são massa, que são compostos por criaturas singulares e que são mobilizados pelas singularizações de seus respectivos integrantes. Assistindo o filme podemos reconhecer que a matilha vai até aí: às vezes comer bosta alucinógena, por vezes mudar o cabelo, por outras sentir que a qualquer instante alguém vai morrer... por vezes alguém vai morrer mesmo, e por outras é no meio destas dores que novas formas de afeição aparecem e uma mudança no modo de se atribuir valores às pessoas e às coisas, também. Luis foi procurar a filha (bode expiatório para amantes de uma boa história, de um aprofundamento narrativo e psicológico que supostamente sobreviveria até no deserto) e acabou liderando a matilha (o que sobrou dela) para atravessar um campo minado. "O chefe de matilha ou de bando arrisca a cada vez, ele deve colocar tudo em jogo a cada vez" eles nos dizem (D&G, "Mil platôs VOL.1", p. 61).


Bom, me parece importante, ao contextualizar esse "uso" de "matilha", não operá-la somente sob a des/hiper-codificação deleuzoguattariana. Sendo assim, quero dizer que há um tratamento com a matilha, realizado por Itziar Ziga, numa obra tão jornalística quanto biográfica, diário de bordo da matilha de cachorras, que pode contribuir por aqui. O livro "Devir cachorra" é simultaneamente uma correspondência (e atualização) do devir-animal de D&G e, em mesma intensidade, uma rigorosa satirização do conceito e termos adjacentes. Já na primeira página do prólogo, de autoria de Paul Preciado e Virginie Despentes, nos é dito que "não se nasce cachorra, torna-se", e que cachorra não é estagnada, pois "todos os trajetos, tanto de noite quanto de dia, tanto alerta quanto doidona, com os olhos cheio de lágrimas ou de raiva, em grupo, casal, trisal, sozinha, mas sempre [fazendo] parte da matilha". O uso da matilha e do devir neste livro ajudam a enxergar (ou ao menos fabular) alguma coisa de generosidade no contexto urbano e, sobretudo, periférico e de imigrantes.


A perspectiva de Ziga é que o feminismo ocorre em matilha (lembra muito o chamamento de Despentes no "Teoria King Kong"), e que os desertores de gênero e operadores de alguma (qualquer!) feminilidade poderão estar em matilha, serão matilha. É uma "comunidade de cachorras e demais animaizinhos" (Itziar Ziga, "Devir cachorra", p.92). Há inclusive uma passagem em que podemos ver proximidade com o agrupamento de Sirat:

Deve prevalecer algo da Barcelona rebelde, porque em seus antros e subúrbios fundamos nossa matilha. Algumas de minhas cachorras são catalãs, outras chegamos aqui vindas da Argentina, Canadá, Portugal, Galiza, Madri e Navarra com ânsias emancipatórias parecidas. (Itziar Ziga, "Devir cachorra", p.51)

A experiência em matilha para Ziga é "construir outros possíveis [de si]" (p.76), e o que faz o bando se unir é algum tipo de resistência comum ou de ressonância (em algum momento converte-se em generosidade) com a luta do outro, com a experiência do outro.


E assim... eu sempre achei meio pedante a coisa do "devir-animal" em D&G. Talvez meu incômodo seja o modo como costuma servir para algum tipo de livramento da própria branquitude e de certa relativização da própria carne (botar uma pulseira e virar cobra, ir na cachoeira e dizer que está se desfazendo de sei lá o quê, "no fim a gente é bicho!" e tal). Mesmo assim, é fato que o conceito de matilha sempre me interessou, e é bem ali, quando eles estão estimando certas feitiçarias de devires-animais, que temos demonstrações pertinentes do que a matilha pode e qual a natureza de sua composição, que é, basicamente, uma perspectiva de que o agrupamento de existências singulares (o convívio entre elas) é o fator de potencialização das próprias existências.


Pensemos na seguinte citação em relação ao filme, pois é no que estamos envolvidos agora:

Se dirá que um devir-animal é assunto de feitiçaria: 1) porque ele implica uma primeira relação de aliança com um demônio; 2) porque este demônio exerce a função de borda de uma matilha animal na qual o homem passa ou está em devir, por contágio; 3) porque este devir implica ele próprio uma segunda aliança, com outro grupo humano; 4) porque esta nova borda entre os dois grupos guia o contágio animal e do homem no seio da matilha. (D&G, "Mil platôs VOL.4", p.31)

Entendamos como "demônio" essa criatura portadora de algo com a qual se faz um pacto, uma troca, uma aliança para devir. E não perdamos de vista que "não basta parecer um lobo ou viver como um lobo para produzir lobisomens em sua própria família" (p.30), pois não se trata de petplay ou de algum formalismo. É importante também dizer que a aranha que picou Peter Parker é o demônio, e não o Tony Stark com suas tecnologias insuportáveis.


E então é necessário falar brevemente sobre a importância do anômalo na matilha. Serão sinônimos, inclusive, o demônio e o anômalo, que pode ser chamado por aí de "o Único", contextualizado como "chefe de bando", hostilizado como "Solitário", e filosoficamente entendido como "Potência superior do bando" (p.26). É a "ponta de desterritorialização", "o indivíduo excepcional da matilha", será o norteador da movimentação do bando:

O anômalo não é nem indivíduo nem espécie, ele abriga apenas afectos, não comporta nem sentimentos familiares ou subjetivados, nem características específicas ou significativas. [...] Nem indivíduo, nem espécie, o que é o anômalo? É um fenômeno, mas um fenômeno de borda. [...] haverá bordas de matilha, e posição anômala [...] posição periférica, que faz com que não se saiba mais se o anômalo ainda está no bando, já fora do bando, ou na fronteira móvel do bando [...] agindo eventualmente tanto como ameaça quanto como treinador, outsider..., etc. Em todo caso, não há bando sem esse fenômeno de borda, ou anômalo. (D&G, "Mil platôs VOL.4", p.28,29)

A definição de anômalo para D&G muito me interessa: se Deleuze e Guattari foram uma matilha, é porque Deleuze era fenômeno de borda de Guattari, e Guattari era fenômeno de borda de Deleuze, e assim por diante... ou "intercessores", como o próprio Deleuze chamou ("Conversações", p.160).


O anômalo-demônio-outsider-treinador é essa figura que, estando na periferia da matilha (e saibamos que a matilha, ela própria, já é em periferia e não ao redor ou produtora de algum centro), aparece com alguma coisa que produz o próximo movimento da matilha. Mas não devemos confundir com algum tipo de comandante! Num primeiro momento os ravers nômades fornecem alguma coisa para Luis e seu filho (que os seguem de carro pelo deserto), depois é Luis que possibilita, literalmente, a continuidade do movimento da matilha (gasolina)... e por aí vai... e não é um sistema de trocas quantitativas! A tendência da matilha não é mercantil; em Sirat a deserção é o movimento do bando, trata-se de desertar e desertar, e depois ainda haverá outra festa, no deserto. E há algo ainda mais curioso no filme: o estereotipo do anômalo, isto é, o indivíduo que tem anomalia, está ali, já numa atualização para o contexto geopolítico de guerra, agindo, talvez, como mais um bode expiatório.


A matilha é essa "multiplicidade apreendida como tal em um instante" ("Mil platôs VOL.1, p.65"), e vejamos que esse modelo de coletividade, que é composta por indivíduos excepcionais (suas diferenciações puderam aparecer e conviver com outras), ao menos aparentemente, está bem presente no nosso cotidiano, sobretudo em contexto urbano.


Na matilha de Sirat não há interesse pessoal das criaturas por suas próprias excepcionalidades, por mais que dados relativos à nacionalidade, ao idioma e ao background (à beira de ferir meu próprio texto aqui) irrompam ao longo do filme... há quem gozaria de ver uma história triste e de rejeição que fez com que aqueles 5 lobos vagassem pelo deserto. É bando, matilha, e pode chamar de outras coisas, se quiser! E a presença da criança é importante neste sentido, pois ela atesta alguma proximidade entre os outsiders e alguém que ainda não sofreu tanta sedimentação: a criança entende rápido o conceito de família que Bigui apresenta, a criança não pergunta sobre as amputações (e não fica sugerido que se trate de educação e disciplina, o envolvimento não é nesses valores). "As crianças são espinosistas" (D&G, "Mil platôs VOL.4", p.43), mas vejam, elas cairão do penhasco.


Quando a coletividade faz um movimento em conjunto, alguém que ficou literalmente para trás, mas supostamente protegido (dentro do carro Sebastián estava mais seguro, segundo Luis, seu pai), acaba perecendo. Vejam: a matilha literalmente conseguiu tirar a máquina de guerra do esburacamento, e teve como resposta imediata a esse agenciamento a queda da criança (a Criança?) no penhasco. O envolvimento de Luis na matilha se verticaliza após a queda de seu filho: rapidamente vemos o pai em luto dormindo, e aceitando dormir, de conchinha com a matilha. Pouco depois, noutra cena, Jade diz que "[Luiz] pode nos fazer bem", enquanto Josh prepara a "boa planta".


Não faria parte do ciclo da matilha sua própria morte, ou dissolução? Quer dizer, o que faz da matilha ser o que é não é a eternidade, mas o movimento por diferenciação. Se não é para sempre que a matilha é, podemos reconhecer que mesmo que todos os indíviduos que a integraram permaneçam vivos, a matilha pode não estar mais ali, caso o movimento por excepcionalidade cesse. Tenho lido que o filme é perturbador e que o é sem motivação pertinente... no meu ver o filme precisamente lida com a insustentabilidade da própria deserção — tentativa ainda presente em alguns insurgentes e teóricos críticos da atualidade, certos autonomistas, o Comitê Invisível —, assumindo uma visão pessimista sobre isso (até sobre isso). Isso tudo pode parecer representar uma decisão infeliz, pois nós estamos desesperados por alternativas, resoluções e narrativas que produzam coerência: como se a coerência fosse o primeiro passo para alguma transformação.


Deserto-desejo do espaço aberto, deserto-desejo da devastação


"Tem que aparecer alguém para nos ajudar", diz Jade (creio que tenha sido ela), "só tem poeira aqui", responde Luis, assim que é resgatado no deserto, após brevemente desertar até da própria matilha. Uma crise da deserção ocorre na escala da matilha, e somos convidados a experienciar essa crise junto deles, especialmente num momento em que não há nem um restinho de psicologismo para forjarmos empatia. É aí que Luis, que, sim, já mostrava ceticismo desde o começo, parece ter alguma coisa, algum insight sobre o deserto, que diferencia-o da matilha — e se mantivermos algum rigor bibliográfico, é essa diferenciação que poderá mover a matilha. Se deserto e a deserção são operados como modos de existência aquém da totalização, uma guinada pessimista sobre isso iria nos levar para onde?


Vamos lá. O deserto, conceitualmente falando, não significa a solidão e o vazio existencial, ao menos não na caixa de ferramentas que opero: o deserto é o espaço aberto, liso, desejar deserto significaria desejar a criação de um campo aberto em que não haja semiotização totalizante. "O deserto é povoado", podendo fazer-nos lembrar do Ma, o vazio cheio de possibilidades. A figura conceitual do chacal é importante neste momento da literatura deleuzoguattariana: ele vai roer toda semiotização que invada a lisura do deserto que ele deseja. No filme, assim como o chacal (que vem de Kafka), eles "são uma matilha intensa que não para de entranhar-se no deserto" (D&G, "Mil platôs VOL.1", p.65).


Além desse "deserto-desejo" que aparece em D&G deste modo que citei, há a ideia de deserção que tem sido retomada na filosofia política e na teoria crítica, e que pode minimamente ser lembrada para pensar nos gestos do filme. Deserção ao capital, aos modelos instituídos de sociedade, à cosmovisão dominante... com rigor, entenderemos que o capitalismo e os modelos totalizantes não cessam de recodificar o que foge ou aparece do lado de fora de seus sistemas, e que neste sentido seria importante uma deserção tão tática e improvisacional quanto cotidiana (o tempo todo, a recodificação capitalística está sempre incidindo), daí o nomadismo, a "arte nômade". Nunca se torna suficientemente desértico a ponto dos desertores descansarem, e nós vemos isso no filme, mesmo antes das fatalidades! É isso que conceitualmente figuraria o movimento filosófico que deleuzianamente devemos ter.


Mas um pane acontece, conceitualmente alguma incoerência já está acontecendo: a totalização que opera a guerra de massa e de territorialização ficou confusa, bem quando se deparou com o espaço liso, que vem funcionado como plano de consistência das Raves nômades. A totalização empenhada na guerra está confusa, e também confunde os esquizoanalistas... ela diz bem assim: "Caralho, acho que sou um chacal! Como não percebi antes?" Ela diz isso porque já não sabe mais do que se trata: "matar ou animais para comer ou comer para limpar as carniças" (D&G, "Mil platôs VOL.1", p.65)? A totalização (a que aniquila as diferenças, que extirpe o anômalo), agora passa a produzir deserto, reduzindo ravers à carniças.


Acharíamos, na mais bem-intencionada molecularização do desejo e de influência de 1977, que o deserto-desejo, desejo de deserto ou mesmo desejo de desertar era experimentação de potência do nomadismo, no nomadismo. Mas podemos também, agora e literalmente, entender que quanto mais bombas no deserto, mais se desintegra nomadismo. É literal, mas não só. Curto-circuito conceitual por usos indevidos, isso é forçosamente grosseiro, oposto do altruísmo, diriam e direi.


Em resumo, o que vemos ao longo do filme é a matilha improvisando, tentando se recompor e se adaptar, criar novas formas de agrupamento, como lhe é conceitualmente coerente em D&G, mas vai ficando difícil, ficando impossível: a criança morreu com o cachorro no colo enquanto seu pai estabelecia generosamente mais uma etapa de aliança com os nômades; Jade, a dançarina que agencia seu corpo pleno com caixas de som restituídas, inicia um ciclo de explosões assim que pede para explodir (pelo menos ela pediu!); as máquinas de guerra da matilha servem de isca para as literais ferramentas e tecnologias de guerra que estão dispostas num chão que parece liso.


_______________ (include any grouping, if necessaray, invent one), ASSEMBLE!

(immediately, we are desperate!)


Quando fui assistir Vingadores: Ultimato a sala de cinema vibrou quando todo um exército de super-heróis, apagados por cinco anos e tidos como mortos, puderam retornar após os esforços de alguns estadunidenses e certos alienígenas. Era fantástico, realmente, ver finalmente o Capitão América tendo motivo para falar a frase incônica dos quadrinhos, que foi também título de uma série de revistas dos super-heróis mais poderosos da Terra: Avengers, assemble! (Avante, Vingadores!) Um agrupamento daquele tipo e daquele tamanho, em que cada indivíduo é excepcional à sua maneira e tem sua própria trajetória: Thanos não está diante de uma grande massa sem singularidade; ao contrário, o que é apresentado (nos muitos anos de filmes) é um conjunto de anômalos que parecem ampliar a potência do grupo por meio das diferenciações que portam. Vencer o vilão!


Esse assemble é realmente estimulante, dá uma alegria ver isso acontecendo, sendo que acontece precisamente quando um alienígena radicalmente neomalthusiano pretende desintegrar populações e planetas (pela segunda vez, mas é também a primeira, porque ele veio do passado, enfim). E é notável no filme que é o exército de Thanos que é sem singularidade, formado por criaturas igualmente ruidosas, tirando os quatro filhos de Thanos, que tem patente nepótica bem transparecida.


Se em matilha a gente não dá conta, e se o agrupamento aparentemente singularizado está em lugares como o Disney+, talvez devamos destruir a estima do assemble! Mas daí... daqui a pouco não vai ter mais nada para estimarmos... então... bom... é... devemos disputar o assemble e sua estima??!!! Mas... justamente e primeiramente, tá foda, porque mesmo que disputemos, e por vezes consigamos constituir micropoliticamente agrupamentos que produzam modos de existir, Sirat demonstrou que podemos literal e simbolicamente pisar num espaço liso e explodir. É para ficar com medo de onde pisamos ou para pisar de outro jeito? Para quem quiser um lema superficialista de Sirat: OLHE POR ONDE ANDA. Hmm... talvez seja para atravessar a ponte do inferno sem pensar que está atravessando a ponte do inferno, nos demonstraria Luiz. Mas e a consciência, Luis? Todo o trabalho de aprofundamento nas coisas, nos modos, nas pessoas? Tem tudo isso, sim! Mas acho que o Luis percebeu que às vezes você tá aí, preparando um processo de singularização e de experimentação da vida, em ritual, sendo diferente das frequências do mundo, e... morre. E de novo, e de novo. E de novo. O processo de singularização e de abrangência das diferenciações dá de cara com um retorno da materialidade que desejamos, juramos ou esquecemos de transformar — e a menos que você tenha algum apoio religioso ou transcendental, a singularização acaba ali.


Mas justamente, há uma pista no filme! Conceitualmente, inclusive, é uma pista conceitual: "não há minas nas rochas" é dito por Luis. Agora desiludidos da superfície lisa onde, até então, toda a matilha deles poderia deslizar, dançar e fazer rave, o objetivo dos sobreviventes se torna, curiosamente, pisar numa superfície rígida, onde não poderiam plantar armadilhas do mesmo tipo que teriam plantado no deserto.


Sirat pode ser (mais) uma oportunidade de colocar em xeque algumas estimas, e ainda numa das maiores no vanguardismo insurgente: a estima da própria deserção. Paralelamente, em termos filosóficos que podem interessar a alguém (não sabemos quem), há uma oportunidade de colocar em relatividade o apreço pelo espaço liso e pela superfície lisa, juntamente da certeza de que neles faremos deslizamento — e que isso seria uma possibilidade de existência.


Nem mesmo a deserção, nem mesmo o deserto...

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Tadzio Veiga, 2024

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