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Notas para o teatro em (contra) insurgência

  • Foto do escritor: Tadzio Veiga
    Tadzio Veiga
  • 20 de abr.
  • 7 min de leitura

Atualizado: 22 de abr.

[Estado e seus ramos paraestatais — Política cultural e terceirizações outras — Artistas em contrainsurgência — Burocracia e imaginação, burocratização — Artistas da burocracia]


É preciso imaginar Fou-tchou-li felizão.


O presente conjunto de notas precisou ser concebido num momento em que a contrainsurgência parece estar, ao mesmo tempo, rompendo seu próprio limite operacional, e, talvez justamente por esta expansão técnica, ganhando a aparência de ser um modo sensato de lidar com os problemas políticos que nos deparamos (somos nós lembrando o Estado de suas próprias regras; nós temos um distanciamento conscientizado do estilo Black bloc). Faço a leitura de diversas autorias insurgentes e destituintes, algumas mais anônimas do que outras, e tento traçar relações com a atmosfera que me encontro.


Se fazem e se fizeram muito presentes na concepção do presente texto as boas conversas que tive com Clayton Mariano, ator e diretor do Tablado SP, com Heloísa Sousa, crítica e pesquisadora de teatro, Bruno Maldegan, performer e pensador da cena, juntamente de debates mais rápidos com outros amigos e colegas da área, e, mais recentemente, com amilton de azevedo no Ato da Cultura do dia 1 de abril de 2026. Não posso deixar de citar que quem me apresentou Fou-tchou-li, figura interessante para pensar a vida nua e o Bloom, foi Janaina Leite, ainda no processo de criação de "História do Olho".


Num momento em que, ao invés da política cultural predatória ser derrubada, espaços teatrais o são, resolvi escrever o seguinte conjunto de notas.



Não há legibilidade estratégica
nos acontecimentos atuais porque
isso suporia a constituição de algo comum,
algo minimamente comum entre nós.
TIQQUN, 2006


  1. É possível ouvir que os jovens de hoje não sabem lutar, que não sabem se organizar em prol de uma ação política, que não sabem colocar as diferenças de lado ou associá-las em favor de alguma unificação política, de gesto integrado; é igualmente possível ouvir que as gerações mais velhas lutaram e querem a luta num modelo que não contempla as singularidades que estão presentes hoje em dia; é também possível ouvir tudo isso saindo de uma mesma boca, de várias bocas, aliás, num mesmo dia, diante das mesmas demandas.


    Por toda parte, trata-se apenas de preservar
    ou estender os interesses. Em troca, o mundo
    povoa-se de silenciosos [...] Não digam mais:
    "Os jovens não acreditam em coisa alguma."
    Digam: "Merda! Eles já não engolem nossas mentiras."
    Comitê Invisível, 2017


  2. Tem me parecido importante pensar (e logo, destruir algo) sobre essa influência que a política cultural e seus automatismos (de tudo aquilo que o Estado e seus ramos paraestatais não cuidam) no horizonte de ação poética e diretamente política. Daqui, ao menos dois problemas para a insurgência: não é na rua, na manifestação, no riot, que vamos reivindicar coisas relativas ao campo social — é nos projetos e nas intermitentes contemplações deles; os pactos civilizatórios dos projetos e dos artistas que viverão (ou tentarão viver) deles precisamente não abrange o ataque às ações do Estado — o artista, ele próprio, se autodetermina à levar o Estado aonde ele ainda não foi, o artista e o trabalhador da cultura vão prolongar o Estado, integralizá-lo (e ainda implorar para fazer isso). Atacar o Estado é, em alguma medida, atacar a si próprio e acusar a si próprio de não cumprir o que deve. Ninguém quer trair aquele com quem se busca cumplicidade.


    Em troca de certo reconhecimento institucional incerto
    [...] o movimento operário e, posteriormente, social
    se engajou em garantir a paz social ao capital
    TIQQUN, 2006


  3. O artista não fez o trabalho (que ele prometeu realizar, quando foi contemplado, de acordo com valores que os próprios artistas no front atestam), e o presente desastre se catalisa nisso, seus estimuladores se beneficiam disso; o artista se rebelar é (mais) um dado para que o Estado e seus arranjos digam que a política cultural, como tem sido feita, deva ser interrompida. Na fila para assistir o musical da Turma da Mônica, Totó Parente e Ricardo Nunes comentam, vendo vídeos de uma manifestação: "olha, eles estão revoltados com os baixos resultados deles mesmos!"


  4. Uma série de contradições aparecem em espaços que são simultaneamente políticos (no sentido da autodeterminação e do engajamento) e sobrevivencialistas (no sentido de ter onde cair morto, onde e o que comer). Um flexibiliza o outro: isso é político porque me faz sobreviver, estou sobrevivendo porque estou envolvido politicamente. Fato é que é extremamente possível que um artista participe do maior festival de teatro do mundo e pouquíssimo tempo depois esteja no sufoco.


    Três qualidades, então, para o teatro:
    que ele seja recreativo, competitivo ou positivo;
    se não, que morra (no mínimo, que se desenrasque).
    E todas as tentativas antropológicas, poéticas e políticas
    para explicar a presença da arte como algo mais do que
    um utilitarismo grosseiro ou boa-fé social tornaram-se
    inaudíveis, incompreensíveis e até risíveis.
    Olivier Neveux, 2017


  5. Muitas pessoas desistem dos territórios artísticos que se formaram e/ou se dedicaram por determinado período. O artista está desertando a arte? Já não se sabe se são as questões relativas a escassez de recursos ou de poéticas, o ovo ou a galinha.


  6. Se nossa dificuldade é em imaginar outros modos de fazer alguma (absolutamente qualquer) coisa, precisamos ao menos não ignorar a demanda burocrática e de burocratização, pois elas estão deixando a vista embaçada... isto é, devemos lembrar que a produção burocrática é tão estatal quanto neoliberal. Dados burocráticos (dos quais somos privados de suas respectivas decodificações) funcionam como medidas contrainsurgentes desde as assembléias em saguões universitários. Se a burocracia for aquilo que bloqueia proposições, não estamos sofrendo de falta de imaginação, mas de falta de permanência nela.


  7. As burocracias se tornarem arte não me parece favorecer artistas, mas sim algumas poucas produtoras e instituições que se tornam especialistas delas. Os artistas se tornam dependentes da arte da burocracia; e os artistas da burocracia, mediante decodificação e com suposta intenção de hackeamento, se tornam artistas de qualquer coisa (de dança, de teatro, de performance, de visuais, de poesia, de instalação, de happening etc.), sob tutela dos aparatos que precisamente são edificados em criativas e demonstrativas avaliações internas.


    Por vezes, tentamos eliminar tão rapidamente os
    constrangimentos em nome da inclusão, porque são
    constrangimentos injustos e que não deveriam existir,
    que acabamos dando nosso consentimento ao mecanismo.
    Fred Moten, 2016


  8. Seria preciso imaginar que o artista da burocracia é bonzinho e que ele quer (ou jura já) mudar o sistema por meio de uma apropriação de seus meios, jogar o jogo para mudar o jogo ou qualquer besteira semelhante. Só imaginando isso (esse altruísmo) é que poderíamos nos permitir imaginar outros modos de política cultural sem antes nos preocupar com o próprio organismo burocrático. E não pensem naquela burocracia velha e mofada, é preciso reconhecer burocracias outras! A burocracia, que agora já chamaremos de burocratização, é um dado relevante na contrainsurgência.


  9. Tão logo entenderemos que a burocratização barra a imaginação, mas que ela é também um tipo de imaginação; e se considerarmos a burocracia como uma grande e minúscula ferramenta neoliberal, se considerarmos o mercado de trabalho dos artistas e trabalhadores da cultura (esse que não existe) como sendo baseado numa política cultural de codificação burocrática do que é arte (por diversas vezes aqui ocorre uma conversão que alegremente resultará no cultural, o que, certamente, também soterra a cultura), poderemos, aí sim, dizer que estamos sem (esta) imaginação.


    De um lado, os procedimentos burocráticos flutuam
    livremente, independente de qualquer autoridade externa;
    por outro, essa autonomia garante que tais procedimentos
    assumam uma dureza implacável, imunes a retificações ou
    questionamentos. [...] A frustração do professor é que seu trabalho
    parece cada vez mais direcionado a fazer uma boa impressão para
    o grande Outro, que é quem coleta e consome esses "dados".
    Mark Fisher, 2009


  10. No meio dessa coisa toda (rizomatização burocrática, transferência de micropoder para artistas da burocracia, avaliação quantitativa de dados sensíveis), se questionará se a geração Z surgirá (surgiremos) com algo como um Arte Contra a Barbárie.



A insurgência me interessa desde muito tempo. Tenho procurado rever os materiais relativos a isto, encontrar outros. Ainda fica uma vontade de se deslocar do recorte europeu... mesmo assim, aqui no Brasil, devemos reconhecer que é nos modelos brechtianos que se forja o modo e a intenção política no teatro (e é com esses códigos e gestos, ou com desdobramentos deles, que se reivindica a mais decolonial das temáticas num palco, hoje). Sendo assim, acho pertinente uma operação implosiva dos materiais ocidentais, para que não nos enganemos com eles.


Farei uma grande citação agora, do TIQQUN. Algo publicado há vinte anos atrás, assim como as epígrafes deles. Fiz alguns cortes que me pareceram pertinentes, de modo a agilizar nosso trabalho:

[...] o movimento operário coincide ao longo de toda sua existência com a parte progressista do capitalismo. [...] até as utopias autogestionárias [...], o movimento operário apenas reivindicou para seus elementos mais radicais o direito dos proletários de gerir o Capital por conta própria. [...] Os regimes ditos 'socialistas' realizaram seu programa verdadeiramente: a integração de todos à relação capitalista de produção e a inserção de cada um no processo de valorização. [...] Assim, foi pelas lutas sociais, e não contra elas, que o Capital se instalou no interior da humanidade, que esta se reapropriou efetivamente dele até tornar-se, estritamente falando, o povo do capital. [...] 'O que queremos é dar uma representação a essas pessoas que não a têm.' Nisso, o movimento social de hoje, com seus neossindicalistas, seus militantes informais, seus porta-vozes espetaculares, seu stalinismo nebuloso e seus micropolíticos, é herdeiro do movimento operário: ele pechincha com os órgãos conservadores do Capital a integração dos proletários ao processo reformado de valorização. (TIQQUN, "Isto não é um programa", p.31 e 32, grifos do original)

Sinto que, infelizmente, não temos encontrado vitalidade no que estamos fazendo, mesmo que em nossa contrapartida esteja escrito, em caixa alta, "VITALIDADE"; e sinto que já não dá mais para sustentar discursivamente qualquer esqueminha pros nossos pela ideia de hackeamento ou de efeitos micro(nano)políticos. E, ainda que digamos estar criando modos de existir em meio ao que nos deparamos, não acho que estamos dançando conforme a música (do mundo). Caso a dançassemos, nossa dança seria tal qual um carro de som capotando e explodindo, e não uma coralização que se aproxima de carro de som qualificado por emitir um discurso bacana sobre tanta coisa importante.

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Tadzio Veiga, 2024

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