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Ir numa cabine 18+ para escrever

  • Foto do escritor: Tadzio Veiga
    Tadzio Veiga
  • há 7 dias
  • 8 min de leitura

Me parece conveniente pensarmos em cafés ou bibliotecas quando queremos (ou precisamos) produzir um material escrito. Pode ser também um cantinho em casa, um lugar agradável para fazer isso. A minha ênfase, pessoal, quero dizer, também aqui, é na escrita da teoria, do ensaio, ainda que possa haver incidência poética nesse processo... não quero que outros casos de escrita não possam conviver com o que quero tratar no presente papo furado. E já preciso dizer que não se trata exatamente de pesquisa de campo, de se inserir no meio pelo qual você quer lidar, para que o relato seja mais verdadeiro. As mil e uma formas de research in the jungle vão aparecer por aí, por ali... isso é o mínimo! O que quero pensar agora, e aqui, é numa frequência que o próprio texto pode assumir quando manufaturado em condições desagradáveis ou não-convencionais. Por ser um papo furado, vou deixar a escrita mais leve, mas declaro que tocarei em coisas parecidas com o texto sobre Sissy e corpos sem órgãos. Também não vou atrás de alguma história da escrita e nem me apoio no que meus autores favoritos diziam sobre o livro e a árvore, a teorização e a fabricação de conceitos.


Faz alguns anos que me relaciono conscientemente com a pornografia além do campo satisfatório ou da condenação, reconhecendo que ali ocorrem dados da realidade e também produtores de realidade, e que, sim, haverá por ali também o ato criador (História do Olho, HEAVY SEX). E posso dizer, hoje em dia com ainda mais certeza, que o que me interessa na pornografia não é seu coeficiente libertador, tampouco uma observação dele em algum forçoso iluminismo repaginado... igualmente não me envolvo na diferenciação sistemática entre o pornô escroto e o pornô bacana. Não vou ventilar o pornô. Algumas pessoas se debruçam nisso, nessa tarefa de grande perseverança, hercúlea!!!


A minha tendência, porém, tem sido a seguinte: numa sala de ensaio ou de espetáculo, o performer deverá se exercitar para tornar-se receptáculo das piores coisas que nos ocorrem ou que estão para nos ocorrer (e não portador da diferenciação que um mundo melhor poderia instituir). Não pretendo que façamos isso de um jeito chapado ou historiográfico (a ditadura militar, o nazismo), mas com reconhecimento dos processos moleculares. Deste modo, uma vez que procuro criar em artes cênicas e performativas, e que, cada vez mais, também em textos ensaísticos e teóricos, passei a me questionar qual agenciamento se fará relevante para uma pesquisa teórica envolvida na molecularidade das piores coisas. Me questiono continuamente (e nunca chegarei em lugar nenhum) qual o equipamento e o espaço pertinentes para esse tipo de trabalho. E, dito de outra forma, com que estímulos se escreve num sincero envolvimento com as assombrações da pornografia totalitária que forjam, juntamente de outros aparatos, meninos que matam Cães Orelhas?


Isso aqui vem sendo uma tentativa de amarrar com enforca-gatos e arames farpados a literatura deleuzoguattariana numa visão pessimista com a pornografia mainstream e formatos de artes cênicas. Vou supor que isso foi assumido em 2024, quando havia desenrolado uma parte do meu mestrado, e queria outras coisas. Eu estava em Heidelberg, concebendo novos manequins para o Olho, quando percebi que esses buracos da pornografia talvez me interessassem mais do que o vilarismo que a esquizoanálise parece atualmente se encontrar. A partir de então mergulhei nas molecularizações totalitárias de plataformas digitais, onde variados agrupamentos aniquilatórios criam modos de ampliar a violência, ao passo que respeitam e se solidarizam pela violência propagada por outrem. É a fórmula da singularização e da Revolução Molecular no mundo invertido! Já tinha feito buscas desse tipo antes — fiz parte de grupos de concurseiros da polícia militar no Facebook.


E, enfim, as bibliografias me interessam muito. Olho pros livros como uma criança olha para um brinquedo, como Trump olha para uma ogiva; fabulando sobre tudo que aquilo potencialmente tem além dos limites que consigo compreender agora (eu juro que não é uma esquisitice teológica!!! Juro!!!). Preciso ter algum material para caminhar... ou melhor: se fará uma pesquisa envolvida em pornografia sem ignorar as incidências que nela detestamos (nós detestamos???!!)? É com Preciado e Despentes que se faz isso?? Ou são os textos e manifestos de pós-pornô que vão averiguar qualquer qualidade propositiva neste assunto? Talvez os livros de André Medeiros Martins?


Estratégia gooner, raptar a utopia gooning para teorizar: imaginemos dezenas de telas simultâneas numa sala bem grande, algumas exibindo filmes pornográficos (variados, infinidades), outras com entrevistas de ex-atrizes e ex-atores contando seus horrores na indústria, outras ainda com relatos de cam models sobre a autonomia e apropriação de uma sexualiação que já está em ocorrência na sociedade capitalista e sexista... vídeos caseiros, shows ao vivo... Ah, e como supracitado, temos os livros os de denúncia, os de hackeamento e os híbridos.


Mas eu estou ornando muito, isso aqui é assumidamente um papo furado. O que provoca curiosidade é a putaria, é falar de cabine +18, é a obscenidade. As convenções da putaria no sigilo ou na cumplicidade entre os envolvidos produzem curiosidade!!! A teoria que se foda, as convenções teóricas efetivamente não produzem tamanha curiosidade. E lembremos que putaria também acaba sendo considerada uma forma de resistir, a menos que a produção pornográfica de tal putaria produza semiotizações fascistas e que as pessoas trabalhadoras nestas produções estejam sendo ludibriadas (isso também é culpa do Estado, mas imaginamos que se o Estado se encarregar da putaria, ela vai ficar uma merda, e não no sentido da coprofilia, no sentido de ficar ruim).


Este texto aqui e seu respectivo título, junto dos rabiscos que reuni para forjá-lo, existem por querer fazer pensar na possível oposição entre as convenções da cabine 18+ e as convenções da escrita, sobretudo teórica ou ensaística. E, junto disso, pra quê escolher uma cabine que remete ao pornô industrial (e que, lá, exibe filmes de pornografia mainstream)? Por que não experimentar um espaço de fruição da corporeidade de modo mais desterritorializado, que poderia forjar uma pesquisa sem reforçar processos de semiotização que comparecem na pornografia mainstream? Esses questionamentos são da perspectiva do artista, de onde ele atua e até onde ele acredita poder atuar.


Bateram na janelinha glory hole, me assustei e acabei escrevendo "Gattarri": agenciar exercícios teóricos de dispersão ou em dispersão; agenciar algum estudo desorganizado; verticalizar a diferença de sensações entre as tensões e ocorrências externas (alguém girou a maçaneta, deve ser um modo de comunicar que quer entrar, ou efetivamente se não estivesse trancado significaria que podem abrir??) e as tensões e ocorrências internas (li esse parágrafo duas vezes e sequer sei o que foi dito!!!).


Embora raros, e sempre em vias de serem aniquilados, os espaços de leitura, escrita e pesquisa costumam ter uma aura tranquilizante, costumam dever ter essa aura. Paralelamente a isso, vemos que, muitas vezes, a pesquisa faz um trabalho de trazer para a luz as coisas que estão fora dela, o papel da pesquisa é exatamente aumentar seu próprio cânone, ampliar sua abrangência; como se iluminar algo no mundo horroroso que nos encontramos fosse, por excelência, uma forma de potencializar a vitalidade deste algo, ampliar sua força, favorecer sua existência.


Penso em fazer o movimento contrário: deteriorar a teoria com o material que outrora ela tiraria a oxidação, onde ela faria polimento. Pego, no meio daquelas centenas de DVDs disponibilizados em saquinhos (como raramente vemos hoje em dia, e que eram comuns antes dos streamings e quando o Playstation 2 era febre), entre um filme de stepmom da Brandi Love e um outro de Fake Taxi, a gravação de "O Abecedário", do Deleuze.


A convenção tem muita participação na manutenção de um desejo aniquilatório por sua respectiva desorganização recreativa. Produzir convenções, mais do que delimitar regras, é esboçar jogos de cintura e desmanches de coisas relevantes para o campo social; nas convenções estão as solidariedades, uma abertura para os códigos e a satisfação da curiosidade por eles. Me parece que uma cabine 18+ tem isso, ela fascina e se torna exótica por suas convenções... ela tem seus costumes, e são costumes bem diferentes do lugar em que o cafezinho é 25 conto e que você se permite ir mesmo que esteja fazendo pesquisa sem grana, sem bolsa.


O PESQUISADOR 1 ESTÁ INDO NUMA CABINE 18+, O PESQUISADOR 2 ESTÁ INDO NO CAFÉ COLOMBIANO. SEI LÁ PORQUÊ ESSES DOIS CARAS ACABAM TROCANDO ALGUMAS PALAVRAS:

PESQUISADOR 1: E aí cara, beleza? Tá indo pesquisar?

PESQUISADOR 2: Tô sim, sempre bom né?!

PESQUISADOR 1: Cara, sim!

PESQUISADOR 2: Demais. O que você tá pesquisando agora? Precisamos trocar mais!

PESQUISADOR 1: Pois é, precisamos mesmo. No momento, estou lidando com Fanon, tô querendo elaborar alguma coisa a partir do que ele fala sobre a linguagem, e a Faixa de Gaza. Acho que pode dar em coisa boa. Acho que tem muita coisa de hoje que já tava sendo dita lá atrás, por ele. E você? Tô vendo que tá com computador.

PESQUISADOR 2: Pois é! Tô indo para um cafezinho! Te convido, aliás! Tô querendo montar um material para fazer a gente pensar sobre a cosmovisão dominante. Meio grande, eu sei. Na verdade, tô interessado em reunir diversas cosmovisões que podem conviver sem competir, sem que uma se torne "a principal". Tá em tempo da gente fazer um grande reset, sei lá. Hahahaha. Enfim, bora pro Colombiano?

PESQUISADOR 1: Pô, agradeço, mas se eu tomar café essa hora eu não durmo. Tenho ido num lugar que é 15 conto a entrada e pode ficar quanto tempo quiser! Tem sala reservada, mas também dá para ficar num ambiente coletivo. Pode até entrar com comida e tal. Tô curtindo muito lá! Cola lá um dia, te passo a dica.

PESQUISADOR 2: Ah, demais! Manda sim. Fiquei curioso.


((((((((((QUE EU SAIBA ESSE DIÁLOGO NUNCA ACONTECEU E NÃO É UMA BOA DRAMATURGIA))))

Então, seguinte: uma convenção é um conjunto de costumes que são aceitos ou mesmo tidos como inerentes a determinados espaços e/ou agrupamentos; por diversas vezes eles surgem de forma transparecida, por regras ou leis estabelecidas em que as pessoas envolvidas na realidade em questão sabem que devem seguir ou serão comunicadas no momento em que saírem desse limite estabelecido... fato é que, mesmo que boa parte das vezes o negócio tenha sido estabelecido, a automatização toma pra si o trabalho; a operacionalidade, ela mesma, exerce valor; o que se faz e como se faz se alimentam, de modo que outros dados de uma cabine 18+ atribuem valor à experiência, tanto quanto a atividade sexual facilitada, em anonimato ou sigilosa. Esses excessos me interessam, porque eles se desenvolvem a ponto de criarem independência daquilo que justificaria tal arquitetura e tal mercado — o sexo, o fetiche —, a ponto de curiosamente ser extremamente viável ir num lugar desses para fazer qualquer outra coisa (escrever esse texto, por exemplo). A automatização aperfeiçoa algumas burocracias a ponto de torná-las dados relevantes da experiência, e não veremos isso apenas no circuito do sexo — a rizomatização da burocracia é um efeitos do neoliberalismo, embora a burocracia tenha sido um dado que o próprio prometeria extinguir.


Vale pensar na convergência entre certos circuitos de experiência sexual fugaz e a teorização da diferença e da diferenciação? Sobretudo por serem, por definição, propositores de desestruturação do desejo totalizado? Ainda que seus efeitos sejam somente recreativos, ou precisamente por serem assim, é que devemos pensar nessas convergências. Por serem, algo que alguns dados indicam, compostos por convenções internas e de autoregulação, e por não incidir de modo transformador no campo social?


Por enquanto, é isso. Não vou, agora e neste assunto, além do que foi colocado até agora: escrever numa cabine me parece pertinente se for do interesse envolver-se com pedaços do mundo que costumamos adorar nos distanciar e diferenciar.

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Tadzio Veiga, 2024

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