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Sissy, Epstein: corpos sem órgãos do trumpismo

  • Foto do escritor: Tadzio Veiga
    Tadzio Veiga
  • há 7 dias
  • 15 min de leitura

[Pornografias de curta duração — Captions — Fenômeno maricas — Criar um corpo sem órgãos ou dar uma aliviada — Presidente da paz — Contrainsurgência paramilitar e paraestatal — Epstein e seus arquivos — American Dirty Way of Life — Retorno transparecido]



Lembro muito bem quando, em um grupo intitulado "Homens de calcinha" (ou algo muito próximo disso), ainda no Facebook e há anos atrás, pude notar que um dos administradores tinha como tema de sua foto de perfil uma campanha de Jair Bolsonaro.


Ian Figlioulo, logo no começo da História do Olho, espetáculo em que contracenamos juntos, cita algo que parece ser comum nos espaços de camming: clientes homens cis, majoritariamente heterossexuais, se vestem com roupas e adereços femininos, performando feminilidade. A esse play, se dá o nome de sissy maid, que, além da conotação feminina pelo crossdressing, é composto por um conjunto de elementos estereotipados de empregada doméstica conjugados com gestos de serventia. Por aqui, neste texto, vamos lidar com a sissy, sem o maid.


Quero nos fazer pensar sobre algumas dessas alianças com o espaço desterritorializado. Serão elas a beira de um ponto de virada ou mais uma forma de fazer a manutenção da estrutura que, de tanta tensão, opera uma linha de fuga contida, um desvio controlado? Nosso passeio vai ser de uma ampla conceituação e com muita citação terminológica (a pornografia e a cultura fetichista são piores que Deleuze neste sentido)... se algo for perdido, foda-se, deixa perder.


Além disso, por aqui, um uso indecente do "corpo sem órgãos" pode se fazer relevante, tanto pela ideia de que ele é um momento em que o corpo acontece desfeito das sedimentações, quanto pela compreensão de que é por meio dele que qualquer desejo verdadeiramente acontece e circula (lembremos que até mesmo o fascismo é desejo, "desejo de fascismo"). Então, dois modos de tratar o corpo sem órgãos vão nutrir o pessimismo deste texto: dele como uma operação do corpo individual no mundo; dele como uma "etapa" do processo de semiotização das coisas.

[...] vamos mais longe, não encontramos ainda nosso CsO [corpo sem órgãos], não desfizemos ainda suficientemente nosso eu. Substituir a anamnese pelo esquecimento, a interpretação pela experimentação. Encontre seu corpo sem órgãos, saiba fazê-lo, é uma questão de vida ou de morte, de juventude e de velhice, de tristeza e de alegria. É aí que tudo se decide. (D&G, "Mil platôs VOL.3", p.13)
Explicou que a Terra [...] era um corpo sem órgãos. [...] era atravessado por matérias instáveis não formadas, fluxos em todos os sentidos, intensidades livres ou singularidades nômades [...] ao mesmo tempo, produzia-se na terra um fenômeno muito importante, inevitável, benéfico sob certos aspectos, lamentável sob muitos outros: a estratificação. Os estratos [...] Consistiam em formar matérias, aprisionar intensidades ou fixar singularidades [...] Os estratos eram capturas [...] codificação e territorialização na terra, procediam simultaneamente por código e territorialidade. (D&G, "Mil platôs VOL.1", p.70)
Do mesmo modo, o sujeito consome os estados pelos quais passa, e nasce destes estados, sempre concluídos destes estados como uma parte feita de partes, cada uma das quais ocupa, por um momento, o corpo sem órgãos. (D&G, "O anti-Édipo", p.60)

O corpo sem órgãos para D&G é a linha de frente na retomada do desejo e no enfrentamento das estruturas capitalísticas; o retorno ao ainda-não-organizado, ao que é pré-individual e pós-individual. Era assim para eles. Mas e agora? Agora, no turbilhão que nos encontramos, até mesmo a instabilização que o corpo sem órgãos estaria produzindo, seguirá sendo resistência? Ou a criação de um momento de desestratificação já está muito bem integrada ao estriamento capitalístico? Sei lá, sei que é conceitualmente contraditório, mas é possível que os aniquilatórios, estes indivíduos que não medimos esforços em nos diferenciar, consigam criar corpos sem órgãos plenos? Quer dizer, fazer passar o desejo, povoar-se de multiplicidades sem cair no vazio, sem estagnar os modos, e, depois disso, sair na rua para agredir pessoas minoritárias. Seria possível?


Vou começar algum pensamento sobre isso priorizando a hipercomplexificação dos fetiches no campo digital, sobretudo quando homens socialmente normativos podem experienciar um processo de diferenciação no anonimato, sem sofrer as feridas de um masoquista vestido de cavalo!


SISSY, NSFW, BNWO, GOONING, HYPNO, WHITEBOI


O que ocorre em lugares como o X, o Reddit e o RedGifs, dentre outros espaços em que se consome e dissemina pornografias de curta duração, é diferente dos consumos pornográficos quando plataformas como X-Videos, RedTube e PornHub eram os grandes arquivos online de explicitude. Essas plataformas seguem disponíveis, mas também sofrem com a incidência dessa curta-duração e da uberização da pornografia. Veja, não falo só dessa espécie de autonomia dos produtores, em que a fronteira entre pornô profissional e pornô amador vai sendo relativizada (uma tendência evidente de mercado), mas de uma mudança no estilo da mídia, nos seus enquadramentos e também na edição. A todas essas aparições, diria que fazem parte da cultura gooner: uma ampla aceitação da pornografia como bem a ser apreciado e dos estímulos físicos da masturbação, mediados justamente pela pornografia, levados ao limite.


Trataremos, aqui, da pornografia que devém do hegemônico e não dos modelos de resistência nestas mídias como a pornografia feminista e o pós-pornô —, pois ainda que processos de diferenciação ocorram nas mídias logo citadas, é exatamente por meio de um olhar crítico sobre certo funcionalismo produtivo destas diferenciações que devemos observá-las.


A linguagem do videogame, do Snapchat e dos atendimentos de camming produziram uma mutação nas plataformas de pornografia, de modo a forjar novos formatos pornográficos? JOI (Jerk Off Instruction, ou punheta guiada), uma imensidão de captions — em que o texto presente na mídia, a "legenda", parece ter sido enviada individualmente para o respectivo consumidor da mídia —, para não falar do P.O.V. (Point of View, mídia em que a gravação é realizada na perspectiva de uma das pessoas que está transando, certamente um homem), que talvez tenha sido a primeira manifestação dessa mutação.


FILME PORNOGRÁFICO ⭢ PORNOGRAFIA RELACIONAL

Não, não. Digo:


FILME PORNOGRÁFICO COM QUARTA PAREDE ⭢ PORNOGRAFIA QUE SIMULA RELAÇÃO

Bom, são MUITOS termos, e espero que possamos fazer algum passeio inicial por tudo isso agora. Com o tempo, vou trazendo outras ênfases, em textos futuros. Por ora, vou focar nas "captions" que parecem bem-servir a um escárnio controlado da masculinidade e dos bons costumes. Digo "controlado" porque não são publicizados: não se vê um whiteboi discursando pública, ecológica e politicamente sobre a importância de erradicar a raça branca do planeta por meio da interrupção da fecundação entre pessoas brancas (se alguém vir algo assim, por favor, me envie), o que seria a utopia do BNWO (Black New World Order).


Nessas captions nós encontramos muitas narrativas. Quero assinalar certos agrupamentos delas, que parecem encontrar correspondência-divergência na lógica de extermínio que vem sendo popularizada por aberrações como Trump, Bolsonaro, Milei etc. Entendam essas mídias como efêmeras simulações:


Cuck: nessas captions, o marido é o destinatário, sendo incentivado a ser traído, por muitas vezes assistindo o ato, ajudando no processo ou até participando. Varia entre algo mais compersivo ou humilhante — ele pode amar participar disso ou beirar uma tortura, podendo inclusive sofrer agressões do bull (que pode ser traduzido como comedor no Brasil). Essas mídias podem simular o momento da "traição" (um vídeo de pessoas transando com algum texto como "sinto muito amor, ele é maior que você"), logo depois dela (um vídeo em que a esposa solicita a limpeza após o ato), ou mesmo conversas prévias sobre o assunto, em que o usuário assiste uma simulação de diálogo com a esposa ou a namorada — em que um dos lados busca ofertar a atividade ou convencer a outra parte. É comum que a parceira seja considerada a "pornstar pessoal" do marido ou namorado, e também costuma ser chamada de hotwife ou vixen.


Incestuosos: bom, o que ocorre nessas simulações é bem óbvio pois é um tema que povoa a indústria pornográfica desde Édipo Rei. Mesmo assim, vale a pena dizer que nesses casos, normalmente, o ponto de vista da produção de mídia com legenda é do próprio jovem (homem, possivelmente adolescente) para seus amigos, em que ostenta estar realizando o sonho do incesto com mulheres de sua família. Estar aprendendo ou de estar sendo manipulado são fantasias comuns, também.


Raceplay: esse campo merece um aprofundamento de acordo com sua relevância, mas por ora, neste texto, vou dizer que nas mídias produzidas neste assunto a diferença (e a fabulação das diferenças) entre as raças é ressaltada e declarada é ostentada, em que na imensa maioria das vezes o homem branco é depreciado quando comparado ao homem preto, tendo como destaque na comparação o tamanho do pênis, a musculatura e o desempenho sexual. Há uma sigla neste guarda-chuva que chama a atenção, o BNWO, um fetiche que integra a dinâmica de raça que parece um tipo de aceleracionismo pessimista-branco, em que os homens brancos devem "perder" suas esposas para os homens pretos, de modo que o planeta seja melhor povoado daqui em diante. As legendas por aqui são muito parecidas com as do cuck, mas com ênfase nos dados citados, e o destinatário dessas captions é o whiteboi (algo como "branquelo"), escrito com "i" ou invés de "y".


Sissy: as captions de sissy (algo como "irmãzinha" ou "maninha", e que é traduzido para o português como maricas) costumam auxiliar ou mesmo desafiar o garoto hétero a cada vez mais desfazer os códigos cisnormativos e heterossexuais. Por vezes os textos apresentam perguntas como "você quer ela ou você quer ser ela?" em mídias de sexo heterossexual e por outras se utilizam de relações sexuais entre um casal heterossexual e cis, mas com um texto que induz à simulação de que o homem que aprecia a mídia irá desempenharia o papel da mulher no ato assistido. Um aspecto de hipnose é comum nas captions de sissy. Por vezes a fantasia é fazer tudo isso e não ser gay, isto é, os atos tem insignificância para o processo de identificação sexual e de gênero — assim como as legendas not cheating, em que uma cena em que visivelmente estaria ocorrendo a traição tem como legenda um argumento absurdo que defenderia a fidelidade dos envolvidos. Termos adjacentes ao sissy também aparecem nas páginas.


E, claro, há misturas e mutações decorrentes dos supracitados tópicos, reforçando a infinidade associativa dessas fantasias no meio digital e a velocidade proporcionada pela curta-duração e a ampla produção de mídias. O chamado cuckson, por exemplo, costuma representar uma união entre as captions de incesto, de corno, de raceplay, e, por vezes, de sissy. Não me parece haver estagnação nos modos, ao menos não nas formas de atingir um pico de sei lá o quê — estão sempre em movimento, gooner nômade, gooner desterritorializante. "Hmmm... com o que vou goonar amanhã?!"


Sissy vai acontecer, sissy já acontece. Minha ênfase, aqui, é nas aparições sissy e na respectiva explosão demográfica destas aparições que fragilizam o masculino de modo recreativo (para os próprios homens) nos espaços digitais. Isto poderia, já, nos levar a pensar que a masculinidade estaria colapsando, e que estes homens estão encontrando pistas iniciais de resistência, para que, ao menos, possam regular o cotidiano gore do qual são vítimas e agentes, simultaneamente. Mas...


Se essas captions produzem mudanças no "sexo real" dos usuários dessas plataformas ou se os deixam mais recatados no cotidiano não vai importar agora e nós nem temos esses dados. Mesmo assim, posso dizer que é comum encontrar relatos e confissões em comentários e posts em que se declara que a fantasia se mantém viva somente nos espaços digitais e nestas comunidades — podem declarar que a importância é essa, ou mesmo assumir o vício e a dificuldade de se relacionar fora dali. Segundo essa lógica, colocada por apreciadores destes materiais, ao invés de um convite para relativizar a estruturação do gênero, material e performativamente, as atividades gonners parecem funcionar como um mecanismo de alívio rápido, um expurgo momentâneo, uma programação que suspende a compulsoriedade, e que justamente por isso cria dependência... onde mais é possível com tanta facilidade desorganizar os conjuntos molares do gênero e da sexualidade sem perder os privilégios sociais dos mesmos???!!


Talvez uma autodepreciação radical possa encontrar seu avesso em algum momento? Ultrapassar os estratos? Quem sabe... Por enquanto, não vemos nenhuma insurgência aparecendo em meio ao fenômeno maricas. E me parece difícil, cada vez mais, saber se estamos diante da restituição dos desejos e das forças que foram adormecidos pelas estratificações ou se o que vemos é a manutenção dos sedimentos por meio de um descontrole recreativo. Em países e cidades em que se pegar em público é muito malvisto, transbordam casas de fetiche e cabines gloryhole. Os caras tão experimentando corpos sem órgãos ou dando uma aliviadinha??!


O que torna tudo ainda mais curioso, e que me fez escrever este texto, é que páginas de pornografias de curta duração, com teor maricas, corno gourmet e BNWO, seguem e por vezes repostam páginas de extrema direita, nacionalistas e de publicização literal da violência às minorias, sempre muito bem recheadas de descrições mentirosas. O feed, rapidamente, se torna esse misto. Vejam: não estamos diante de caras que vivem uma vida isolada, enrustindo-se, indo na LAN house para digitar no chat uol que querem chupar pau e assistirem a amada esposa num gangbang; estamos diante de caras que digitam essas coisas, e muitas outras, em seus perfis de socialização punheteira NSFW (Not Safe For Work), num exercício de extrapolar o que cabe no regime que ele está envolvido publicamente (ele é hétero, casado, homofóbico?), e que podem muito bem consumir com o mesmo amor, e nos mesmos espaços, a ideologia trumpista de extermínio. Consumir essas coisas e não publicizar apoios estruturais às mulheres, às pessoas queers ou às pessoas pretas, ao passo em que se divulga ataques a estas pessoas, não parece contraditório neste estatuto das coisas. Acredito que estejamos diante de uma das mais bem elaboradas formas de manutenção das estruturas e violências de gênero dos últimos tempos, uma vez que nela ocorre a abrangência de sua própria desterritorialidade, e a respectiva intensificação desta, de modo recreativo.


Quero chegar na questão do Trump, e torço que possamos fazer isso juntes. Refletir o porquê de ter tantas casas de swing em Moema não desenrola o que me parece que precisamos. O negócio transbordou e, além dos buracos da internet que procuro frequentar nos últimos anos, a obscenidade internacional está evidenciando isso. Ninguém vai convencer o trumpismo de ir pro divã, mas talvez eles já tenham entendido a importância de experienciarem-se como maricas para seguir o plano.


Destituir os conceitos de paz e de maricas ou disputá-los???!!


Vamos supor que Trump se torne "o dono" da paz, em termos de política internacional. Vamos supor que esses últimos movimentos que ele tem feito, de mediação nos conflitos de Rússia e Ucrânia, e de contrainsurgência na Faixa de Gaza (dando a aparência de um cessar-fogo entre Israel e o povo palestino), se tornarão suficientes para que a opinião internacional reconheça nele um grande pacificador (não falo das duas dúzias de nações que o apoiam nisto, inclusive sob a constante ameaça necropolítica, falo de algo maior mesmo). Algumas das análises jornalísticas mais recentes apontam o fato de que o interesse de Trump é em se tornar uma liderança além dos limites nacionais e do próprio mandato dos EUA o lançamento de um conselho da paz, com autoproclamações e indicações ridículas, parecia ser um movimento tático para os conflitos atuais, mas muitas são as pistas de que é um projeto maior.


Atirar em wine moms, invadir a Venezuela e raptar Maduro, ameaçar a Groelândia (por ressentir que não tem navios quebra-gelo como a Rússia), assumir a existência de uma gangue paramilitar e paraestatal para extermínio de estadunidenses não-brancos e imigrantes, e bombardear o Irã em parceria com Israel, parecem ser só um primeiro estágio dessa nova fase Trump. Os EUA e os estadunidenses parecem ser um meio pelo qual Trump está armando seu próximo esquema (E DIANTE DE NOSSOS OLHOS, PORNOGRAFICAMENTE!!!!)...


Ainda sobre o primeiro mandato de Trump, o jurista e professor Bernard E. Harcourt escreveu sobre as promessas cumpridas pelo presidente:

A totalização e internalização da contrainsurgência nos Estados Unidos hoje — numa época em que não há sequer a mais remota aparência de uma insurgência doméstica — merece um novo rótulo: Contrarrevolução. [...] um estado perpétuo de guerra de contrainsurgência. (Bernard E. Harcourt, "A contrarrevolução: como o governo entrou em guerra contra os próprios cidadãos", p.231-232)

Dia desses me deparei com um vídeo em que um adolescente negro era espancado por alguns adolescentes brancos, e a legenda do vídeo era que o adolescente negro teria abusado sexualmente da irmã mais nova dos adolescentes brancos — uma lógica muito parecida com as captions maricas mais cedo citadas, pois não há qualquer indício da veracidade dessas acusações, nenhum anexo. Talvez as mídias de curta duração e com captions já sejam, em si, uma mutação dos formatos de FAKE NEWS... Bom, Harcourt diz que a internalização da contrainsurgência não ocorre por docialidade, mas por engajamento, por excesso de informação, por integração funcional ao sistema — a tendência paramilitar e paraestatal que Trump adora. A análise histórica da contrainsurgência de Harcourt é, resumidamente, a seguinte:


CONTRAINSURGÊNCIA MILITAR ⭢ NA POLÍTICA INTERNACIONAL ⭢ DOMÉSTICA

Foi uma estratégia de guerra em território inimigo, depois um modo de manter uma ameaça viva com outros países, e depois uma internalização dentro dos EUA. Mas, o que temos visto, principalmente no último ano, é um movimento expressivo de Trump incidir no internacional, fazendo o movimento contrário (mas mantendo a contrainsurgência doméstica, pois como temos visto o ICE não cessa de espancar cidadãos). Seria O Curioso Caso de Benjamin Contrainsurgência:


CONTRAINSURGÊNCIA DOMÉSTICA ⭢ NA POLÍTICA INTERNACIONAL, E MILITARMENTE, PELA PAZ

Após encontrar a mais sofisticada operação de contrainsurgência (a internalização, o voluntariado paramilitar e paraestatal), Trump percebeu que os EUA não são suficientes, e que ao invés de ampliar o tamanho do país, talvez seja importante se apropriar de conceitos, ampliar a si próprio conceitualmente — a paz e a mediação, o pacificador e o mediador. Para melhor compreensão histórica e técnica da contrainsurgência que vem organizando os Estados Unidos e seu imperialismo, vale a leitura atenta do material de Harcourt.


E vejamos que nós, aqui, não precisamos ir tão longe: uma operação discursiva com a paz e e a administração política pelo fim dos conflitos está bem presente nas campanhas políticas aqui do Brasil, com maior intensidade após a polarização entre petistas e bolsonaristas... diversos candidatos, inclusive, tentar forjar uma oportunidade de terceira via que "reconcilie os brasileiros".


Me pareceu necessário, minimamente, exercitar alguma coisa sobre Trump além de um nacionalista populista e xenofóbico, porque até isso parece fazer parte da caixa de ferramentas que ele opera. Na sequência, desejo, rapidamente, trazer para o texto um cara que gosta tanto de mulheres bonitas quanto o Trump.


Epstein, o auge e a queda de um lifestyle


A hipérbole disso tudo pode ser Jeffrey Epstein, digo, não só ele, mas o conjunto que ele comporta e representa. Aliás, se ele realmente morreu ou não, conceitualmente, foda-se, pois virtualmente (no sentido filosófico e digital) sua presença está estabelecida. Histórias de ricos que acham que podem fazer o que quiser (a polícia e a política atestam esse pensamento deles, sempre que podem) estão em vias de serem contadas todo o tempo. Às vezes nem são tão ricos assim, só precisam sentir que estão impunes e que estão sempre diante do playground — e que alguém vai limpar sua bunda se fizer cagada. E, assim como Trump, se Epstein não gostar do modo como estão retratando algo sobre ele ou que pode afetá-lo (emocionalmente, imagino), ele COMPRA o que quer que esteja incomodando e muda a gestão. Remanejar a própria retratação, matar o Cão Orelha, enfim.


Epstein é a hipérbole desse benfeitor que quer tirar uma casquinha. Mas ele é muito real, e isso parece mais assustador a cada vez que nos deparamos com qualquer dado sobre isso. Relatos, vídeos, conspirações. Até onde vai esse poder? Até onde foi esse poder? Quando se chega nesse nível de poder, realmente importa o quer que chamem de ética, moral, consentimento, saúde, verdade? Ah! Epstein era um novo-rico: não tinha herança, curiosamente não correspondia aos ricos estadunidenses e seus costumes, sua educação... Epstein era um outsider ali nas ilhas, era anômalo.


Mas não temos tempo para biografar Epstein. O texto já está grande. Na verdade, quero fazer a gente pensar sobre os efeitos da chegada dos arquivos, sobre esse modo de amizade-Epstein e essa proximidade com Trump. A aparição dos arquivos em texto, documentos e mídias fotográficas e audiovisuais tem assombrado os fóruns da internet e os portais de notícia: nomes de famosos que amamos estão ali, abusos sexuais variados... rumores... Será que amanhã vão descobrir que meu ator preferido de Hollywood curte transar com cabeças decepadas de bebês?


Bom, os 120 Dias de Little Saint James não duraram para sempre, embora tenham durado muito. Com muita insistência das vítimas dos abusos e aliciamentos, e seus respectivos advogados, deu merda no prisma de Epstein e sua comparsa Ghislaine Maxwell. Seu esquema de prisma de trabalho sexual desmoronou junto com os materiais para chantagem, e agora talvez estejamos assistindo merda no ventilador à conta-gotas: por conta dos arquivos que vem aparecendo, podemos estar em vias de uma queda do American Way of Life, pois seus totens estão sendo publicamente ensujados. Talvez seja o caso de um desmanche de boa parte da estratificação estadunidense desde o pós-guerra! E que, talvez, a última tentativa de restituir esta territorialidade seja precisamente assumindo o American Dirty Way of Life, algo que, inclusive e infelizmente, combinaria muito com a caricatura ambulante que é Donald Trump. "É isso mesmo, fizemos isso mesmo. Vai falar o quê? Eu estou aqui, ocupando essa posição, e estava envolvido nisso aí sim, assim como eu fui lá e sequestrei o Maduro. Não foi?!"

"Sobretudo o corpo sem órgãos é que é o último resíduo de um socius desterritorializado." (D&G, "O anti-Édipo", p.51)

A sissy e as tecnologias de simulação de desprezo da belicosidade masculina, e a indecorosidade dos arquivos Epstein, em escalas completamente diferentes, me parecem demonstrar ocorrências de entropia de um certo modo de existência. No primeiro caso, nos aproximaríamos de um programa de criação de um acontecimento, um clímax, um momento em que o organismo é separado de seus códigos fundantes, por meio de ações literais. No segundo, uma grande estrutura, um grande organismo, o sonho estadunidense (que eles chamam de americano), sofre um impacto como o dinheiro "sofre" com a inflação — nos lembramos que são pessoas, que fazem cagadas, e podemos mais facilmente observar a construção histórica da idolatria que temos por eles. A sissy equivaleria à criação de um corpo sem órgãos, enquanto os arquivos Epstein equivaleriam ao ensinamento de que até mesmo o mar sofreu estriamento e foi codificado em mapas. Pretendo num futuro próximo aprofundar a questão de Epstein e do fascismo internacional de Trump, talvez um parte II disto aqui.


Minha questão com tudo isso é se essas desestabilizações, em escalas absurdamente diferentes, podem, na verdade, se tornar novos modos de existência que fortalecem as estruturações que a estima do corpo sem órgãos juraria combater — ao invés desses momentos servirem para o aumento do desejo de desestruturar, se tornam técnicas sofisticadas de um retorno ainda mais transparecido para o que é estratificado, endurecido. Talvez o trumpista acredite, tão logo, que pode fazer certas coisas, que antes poderiam soar contraditórias, criminosas e maricas (talvez o mais transgressor para ele) e que estará tudo bem, desde que justamente se mantenha alinhado a/ protegido por determinado espectro ideológico.


"Ah, mas se a produção de desejo é aniquilatória não tem como chamar de corpo sem órgãos, ou pelo menos você podia chamar de corpo sem órgãos canceroso, vazio ou totalitário." Alguém pode me dizer... e sim. É um equívoco conceitual, ou, como eu preferiria dizer, uma operação negativista desses conceitos, tendo em vista desdobramentos da estima da singularização no mundo — essas estimas não me parecem estar movimentado muita coisa... "Ah mas o que tem acontecido não é singularização, não!!! Singularização é outra coisa, veja bem." Ok, eu sei, eu sei. Em outros momentos aprofundamos nisso. Mesmo.

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Tadzio Veiga, 2024

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