Esquizoanálise é cringe; falar "cringe" é cringe
- Tadzio Veiga

- 22 de fev.
- 5 min de leitura
Atualizado: 2 de mar.
[Esquizoanálise — Cringe clássico e cringe não-clássico — A operacionalidade, a funcionalidade e a composição — Guattari sem Deleuze — Revolução molecular]

Nunca, enquanto eu lia D&G, tive a vontade de abraçar uma árvore. Justamente por isso, creio eu, demorei para perceber (ou aceitar) que as proposições deleuzoguattarianas (e também as de Artaud!!!) costumam bem-servir aos formatos que expressam comunhão (cósmica, ecológica). Ainda que se fale, nos textos, em constelações rizomáticas e numa mudança radical de perspectiva sobre a semiotização do mundo, precisamente não me parecia algo que já nos ocorria. Sempre me pareceu um trabalho, e não uma celebração das coisas que desde já consideramos formas de resistência. Bom... fato é que alguns esforços, na atualidade, procuram reabilitar a esquizoanálise, procuram reinvestir precisamente o seu caráter operacional (e crítico) das estratificações que nos deparamos no cotidiano capitalístico.
Hmmm... talvez a esquizoanálise tenha "se perdido" ou sequer foi encontrada.
Ironia e pessimismo à parte, gostaria de destacar o esforço, aqui no Brasil, feito por Anderson Santos: sua busca por uma esquizoanálise na lógica de composição (e não de competição) com a psicanálise é uma defesa da operacionalidade deste montante, o que é exatamente atestado na bibliografia de D&G, pelas tarefas positivas e por regras concretas. Lembremos que um dos sinônimos para "esquizoanálise" é "a pragmática".
A primeira tarefa positiva consiste em descobrir num sujeito a natureza, a formação ou o funcionamento de suas máquinas desejantes, independentemente de toda interpretação. O que são suas máquinas desejantes? o que você faz entrar nelas? o que você faz sair delas? Como isso funciona? Quais são os seus sexos não humanos? O esquizoanalista é um mecânico, e a esquizoanálise é unicamente funcional. (D&G, "O anti-Édipo", p.426)
Essa condição de "micromecânico", de um operador das coisas com as quais se depara (e não de um retorno incessante a uma estrutura com a qual todes seriam compatíveis) é característica do trabalho esquizoanalítico. Faz sentido, então, que até mesmo dentro de uma abordagem esquizoanalítica, aparições gregárias ou edipianas sejam tratadas, e que, para elas, até mesmo os mecanismos de interpretação familiarista possam compor o exercício analítico (talvez repensar ou entender de outra forma as tais "destruições necessárias"?).
Consideramos a esquizoanálise como uma caixa de ferramentas, sem pretender apresentá-la como melhor que outras, mas reconhecendo sua potência. (Anderson Santos, "Devir-esquizoanalista: por uma psicanálise menor" in "Psicanálise e esquizoanálise: diferença e composição", p.91)
Juntamente dessa vontade de reencontrar a mecânica outrora esquecida (a esquizoanálise não deve ser um micro-culto de classe média alta esclarecida e interessada em seus afetos outros!!!), me parece haver uma preocupação, também em outros autores contemporâneos, em grifar a autoria de Guattari na esquizoanálise — até hoje, sim, ouve-se sobre "'O anti-Édipo' de Deleuze". Essa vontade guattariana também se apresenta em diversas publicações dos últimos anos, quando textos inéditos de Guattari foram reunidos e traduzidos, e outros difíceis de encontrar, até mesmo em formato PDF e em sebos, foram republicados.
Retornando ao mote do presente texto. Cheguei a citar na minha dissertação de mestrado os momentos em que pessoas estavam evidentemente desinteressadas na esquizoanálise, durante apresentações teóricas e introduções sobre o assunto que realizei. Por vezes dormiam! Tive uma experiência de insight no dia em que retornei ao Instituto de Artes da Unesp (local que fiz graduação), onde, sob convite de Caio Netto na aula de Psicologia e Educação, fiz o exercício de introduzir a pragmática de D&G. Na verdade, esses desinteresses me fazem refletir sobre a pequena história da esquizoanálise, sobre a história das lutas multicomponenciais, sobre a política cultural e também sobre as condições profissionais e pessoais, atuais, das pessoas que se deparam com esquizoanálise e com outras teorias de estima da micropolítica e da singularidade.
COMO ASSIM uma obra inspirada precisamente na insurgência e nos fluxos minoritários que apareceram no Maio de 68, conjuntamente a uma perspectiva crítica da respectiva contenção dessas forças pelo estriamento capitalístico, É DESINTERESSANTE? JUSTO AGORA QUE A ATOMIZAÇÃO ESTÁ EM ALTA E QUE TEMOS COMO DEVER PUBLICIZAR NOSSAS INSURGÊNCIAS? A esquizoanálise é cringe e o cringe não cessa de territorializar tudo o que aparece?!
Se quisermos, podemos observar que "o cringe" também vai sofrendo mutações ao longo do tempo. Sua operacionalidade também flui — não é só o tratamento de um termo como o de corpo sem órgãos que varia ao longo dos textos e das trajetórias de seus operadores. O cringe é também integrado aos seus enunciadores como um pequenino modo de agir, uma apropriação de alguma coisa que outrora, supostamente, gostariam de se diferenciar: se num primeiro momento o cringe funciona como uma acusação do velho, do vergonha alheia, do sem noção (cringe clássico); mais recentemente ele funciona como um operador da própria pós-ironia, um modo de debochar da própria condição de ser vergonha alheia, e de talvez, com sorte, destituir a própria importância de se preocupar com isso. É uma incorporação que não agracia-se. Vale a pena observar subreddits e dialogar com inteligências artificiais sobre isso.
Pensemos sobre essa operação do cringe não-clássico, este em que ocorre um processo identificatório com o cringe, em que "se veste" o cringe. Agora, acusar o cringe é cringe. Talvez se preocupar com o cringe seja cringe; ficar gastando tempo e energia com o cringe é cringe; e assumir o posto de cringe, ainda que somente nas publicações e no cotidiano digital, pode se tornar uma forma de destituir o valor do cringe. Ou seria mais uma forma de um niilismo apresentar-se, fazendo com que gastemos gestos destituintes em coisas que não incidem no campo social?! Imediatamente, já faço o apontamento de que este último questionamento foi potencialmente cringe.
Certa vez ouvi de uma séria e importante deleuziana que o modo como eu operava a presente pragmática (a obra de D&G, sobretudo) poderia tornar-se tal qual o de um censor, e que havia um paradoxo irreparável, neste modo, que era o fato de que eu estava me relacionando com um material de estima das potências afirmativas com a intenção de dúvida e negação. Foi aí que foi importante articular no próprio exercício teórico, ainda mais, essa suposta boa intenção que teríamos com os conceitos e as pragmáticas quando nos encontramos com eles. Se eu puder resumir violentamente um pensamento sobre isso, talvez eu diga que fazer operar o que a esquizoanálise quis, hoje, em meio à hipercomplexificação que outrora pareceria saturar o capitalismo a ponto dele colapsar (ou, ao menos, sentir algum abalo), talvez signifique destituir a assertividade de sua própria operação, e conferir alguma relatividade a todo o montante envolvido nessas estimas todas.
Se são casos de composição, se são caixas de ferramentas, se são operações improvisacionais com os dados que se encontram no espaço que você habita, me parece importante operar exatamente com o que não nos faz celebrar paixões alegres (para usar o termo de Espinosa que é popularizado no estudo esquizoanalítico pela escola de Luiz Fuganti); e isso não pode se confundir com o cinismo — mas isso fica para um outro momento.
Essa "terceira esquizoanálise", que é a esquizoanálise de Guattari sem Deleuze, nos faz questionar ainda mais por que não conseguimos incidir no campo social. Os relatos de Guattari, nos anos 80, explicitam isso. Por que acreditar na revolução molecular soa tão cringe, ao passo que seus componentes internos (potências minoritárias, generosidade coletiva com a aparição da diferença) aparentariam estar bem alinhados com a atualidade?




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