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Crepúsculo da singularidade

  • Foto do escritor: Tadzio Veiga
    Tadzio Veiga
  • 22 de fev.
  • 3 min de leitura

Atualizado: há 4 dias


O tempo de realização do teatro e da dança, assim como dos artigos acadêmicos e outras publicações, não contemplam o turbilhão que me atravessa. Por sorte tenho boas conversas e boas discussões... acho que tenho encontros de muita sorte — isso tudo motivou o que aqui se inicia.


A primeira vez que "fiz" um blog eu tinha uns 10 anos. Eu passava um tempo na internet e, em meio aos materiais impróprios e outras conspirações, acabava reunindo coisas que me pareciam valer a pena agrupar num feed. Na época eu me envolvia com imagens e vídeos nonsense, talvez o fomento de um niilismo. Meu envolvimento, agora, é outro: ao invés de troll face, uma visão pessimista da estima das micropolíticas.


Nos últimos anos tenho feito um exercício continuado de leitura e escrita, e, embora isso tenha sido investido nas obras que concebi e nos textos que publiquei, existe uma multicomponencialidade que eu não estou dando conta nesses formatos. Quando falo de turbilhão, é neste sentido. E quando falo de multicomponencialidade, não é no sentido de me sentir inspirado pela multiplicidade, mas sim por algo meio merda, algo mais insuportável... o que me ocorre (nos ocorre?) e como escrevo é mais maçaroca, mais metástase: lido com diversos autores e com referências variadas; procuro tecer relações entre eles na mesma qualidade que as células cancerosas desempenham em nosso corpo.


Paul Preciado nos disse que quando somos vítima e algoz, devemos rir de nós mesmos; Judith Butler afirmou que o poder jurídico produz aquilo que alega meramente representar; Antonin Artaud precisaria cagar sangue pelo umbigo para chegar onde gostaria; Mark Fisher se suicidou; Virginie Despentes questionou por que é que não estamos numa grande orgia; Bifo diz que nos ocorre hoje em dia uma "paisagem autista"; Félix Guattari via no Brasil o terreno fértil para a revolução das minorias e das diferentes abordagens políticas em concomitância.


Mesmo assim, pra quê escrever????!!! E pior, publicar???????!!!!!!!! Em formato de blog??????!!!!!!!


Importante assistir noticiário, se envolver com textos de áreas variadas, ouvir intelectuais, observar a cidade, questionar montantes filosóficos e precisamente colocá-los em alguma relatividade... assistir teatro, dança, performance, ir em galerias de arte. Conversar com pessoas.


Mas alguém vai ler?! Isso ainda fica. Que decisão é esta que, aparentemente, parte do pressuposto que alguém vai se dedicar ao ato de leitura por aqui?! Efetivamente terá alguma serventia o presente investimento de tempo e de energia?! Num período de capitalização das maiores-menores coisas e de cobrança inventiva-produtiva de todas as áreas de nossas vidas, que vontade há em postar textos num blog? E, caso haja a leitura, acreditarei eu que a presente escrita, publicada, terá verdadeira relevância para quem quer que esteja lendo? Os textos devem lidar com isso, os formatos deles devem lidar com isso. Isso é parte integrante da vontade e da atividade desta escrita. Eu devo lidar com isso. Não falo isso no simples sentido da autocrítica, mas em alguma coisa que pode ser o suicídio repetido da própria textualidade.


Lembremos que Deleuze e Guattari acreditaram (e desejaram) que "O anti-Édipo" seria lido por jovens, aqueles logo no fim da adolescência. A obra em questão, até hoje, é considerada extremamente codificada e não poderia produzir mais preguiça nos jovens que raramente se deparam com ela.


Esta primeira publicação podia ter sido uma mensagem de boas-vindas.

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Tadzio Veiga, 2024

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